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A fragilidade humana

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.03.11

 

Foi uma sensação estranha que me ficou após a visão de Babel. Uma sensação que não consigo situar nem definir. A primeira ideia, talvez a que se sobrepõe a todas as outras, é a incrível fragilidade da vida humana, da vida de cada um. Um segundo é suficiente para alterar tudo, um percurso, um sentido, um equilíbrio. Uma má decisão, uma hesitação, uma precipitação, uma emoção deslocada, e tudo pode alterar-se e caminhar para o caos.

 

A ideia que emerge a seguir é a incrível distracção geral do essencial, e talvez por isso mesmo o tal desequilíbrio que coloca a vida em perigo. Estas duas ideias estão interligadas, portanto. Uma vida mais atenta e orientada pode prevenir muitos erros e perigos.

 

Depois, esta ideia de que as pessoas simples se assemelham mais do que as formas de organização do poder de cada cultura. Interagem de forma mais fluida do que as organizações, procurando sobreviver da melhor forma. As organizações são frias, impessoais e insensíveis. Vêem potenciais inimigos em todo o lado. Não conseguem distinguir os sinais da verdadeira violência de outros sinais, os simples equívocos. Aqui a excepção é a do polícia-detective japonês que mantém a sua humanidade em todas as circunstâncias, mantendo-se do lado das pessoas simples, das suas vidas e das suas tragédias.

 

Finalmente, a ideia final é a do incrível milagre: a sobrevivência da mulher atingida pelo tiro do miúdo e a sobrevivência das crianças no deserto. Que mensagem nos fica aqui? Não sei. Que no meio da maior fragilidade há lugar para o milagre? Ou a mais perturbadora: estamos todos ligados por fios invisíveis, razões que desconhecemos, o grande plano? Ou a mais fácil de todas: um simples acaso, uma arbitrariedade?

 

Este Babel lembra-me muito o Grand Canyon e não é certamente por acaso. No Grand Canyon todos percebem estar ligados entre si, mesmo sem perceber bem porquê. Há um impulso para, de forma grata, tentar tocar a vida de outros, para a tentar compor.

O Grand Canyon iniciou uma nova forma de construir uma narrativa em cinema, em que várias personagens estão estranhamente ligadas, em que as pessoas comuns se apoiam mutuamente e em que sobrevivem da melhor forma aos perigos actuais (que, no fundo, são o retorno dos perigos antigos e universais, a violência humana).

Também aí se encontram duas culturas: a das pessoas comuns e das suas vidas simples e a da linguagem do poder. Interessante a personagem do produtor de cinema que percebe a lógica desse fosso enorme entre ricos e pobres, entre a concentração do poder e a sobrevivência dos restantes, mas que ainda assim, e depois de ter experimentado a violência na própria pele, regressa à promoção da violência nos filmes, aceitando-a como parte da natureza humana.

 

Hoje fico por aqui nesta minha reflexão. Mas Babel não fica por aqui. Não porque o filme me tenha impressionado por aí além, mas porque me provocou imensas questões que gostava de clarificar. Umas têm a ver com as pessoas, as suas vidas simples, outras com as organizações, a linguagem do poder. Outras têm a ver com a narrativa em cinema, o filme-documentário. E ainda outras, com alguns dilemas humanos que gostaria de decifrar ou perceber, mesmo sabendo que isso é uma tarefa que não está ao nosso alcance.

 

A fragilidade humana, pois. Aqui o que precipita tudo é que as personagens em perigo de vida estão fora do seu habitat natural, do seu território. Aqui até mesmo a rapariguinha japonesa, que está no seu território, se sente deslocada, procurando agarrar-se a alguém, a um contacto com o real.

Tudo se desarmoniza e só volta ao equilíbrio quando regressam ao seu mundo habitual e as famílias se reúnem de novo. Reparem que até a imigrante ilegal terá de regressar ao seu mundo original, que já não reconhece como o seu mundo. É certo que no seu caso porque desafiou as regras territoriais.

Sim, há regras territoriais, a lógica das organizações e da linguagem do poder, para além das diferentes condições de vida conforme as limitações da natureza. A natureza também condiciona os territórios: vejam bem as diferenças de territórios desérticos ou pedregosos, onde as pessoas se dedicam à pastorícia e pouco mais, com territórios altamente industrializados. É um contraste que nos choca no início. São séculos de diferença. E no entanto, a mesma desorientação da rapariguinha, o mesmo pedido de socorro.

 

A linguagem do cinema tem regras próprias, mesmo na narrativa. Aqui muito próxima do documentário, embora se distancie nas cenas mais íntimas em que o documentário não entra, apenas o cinema.

As personagens vivem o seu drama, o seu próprio desamparo, sem saber umas das outras. Acompanhamo-las sentindo o seu desamparo, esperando que se salvem. Nessa empatia humana o filme é eficaz. Um exercício muito necessário nos dias que correm. A empatia com o mais frágil que um dia podemos ser nós. Nunca saberemos quando podemos ser nós a procurar socorro, um abrigo. 

Esta ligação entre personagens pode exemplificar a ligação implícita entre todos os que habitam este planeta de territórios tão diversos, de culturas contrastantes, de vidas tão diferentes, mas em que todas as pessoas se irmanam na sua humanidade.

 

 

 

 

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publicado às 11:39

Jane Eyre

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 07.04.09

 

Jane Eyre fascinou-me na adolescência. Aquelas personagens! A rapariguinha com aquela força de carácter! Parecia mais um espírito andarilho do que uma mulher. E no entanto... tão capaz de paixão e de afectos!
E Rochester... o sombrio Rochester...


Vi recentemente o clássico Jane Eyre com a Joan Fontaine e o Orson Welles. O filme não me impressionou por aí além.
Por isso me agradou tanto ver na Rtp2, e por duas vezes, uma excelente série para televisão. (1) Muito equilibrada, os actores bem dirigidos, as cenas muito bem concebidas. E uma Jane e um Rochester muito comoventes. Aquele final feliz...

Porque me tocou tanto esta Jane andarilha e este Rochester sombrio?
Um Rochester sombrio, preso ao passado, a querer viver o amor... E aquela frase: Não somos do género platónico...
E não são. Os reencontros entre risos e lágrimas, “dois irmãos gémeos”. E a comunicação à distância: Espera por mim...


Acho enternecedora a forma como estas escritoras construíram personagens femininas tão fortes, decididas, cultas e autónomas. E como os homens, enquanto personagens, as aceitam como iguais.
Terá sido assim com Charlotte Brontë ou ter-se-á projectado num futuro idealizado? (2)

Também enternecedora esta filosofia tão feminina da generosidade, da distribuição dos bens por todos, de colocar a família à frente do individual.
E como acaba tudo bem. Jane, Rochester e o filho. E a recuperação de alguma da visão perdida. E a família toda unida, finalmente.
Depois de todas as atribulações, desencontros, solidão, sofrimentos, é assim que eu gosto de ver tratadas as minhas personagens bem-amadas.

 

 

 

 

(1) Série de 2006, realizada para televisão, por Susanna White. A adaptação do romance de Charlotte Brontë por Sandy Welch e magníficos actores nos principais papéis: Ruth Wilson (Jane Eyre) e Toby Stephens (Rochester). Se bem que o Rochester do livro não devia ser tão jeitoso, mas enfim... este Rochester é o mais agradável de todos os Rochester que vi... e assim para sempre ficará ligado, na minha memória, ao Rochester do livro.


(2) Brontë, name of three Englisn novelists – the sisters Charlotte Brontë (1816-55), Emily (Jane) Brontë (1818-48), and Anne Brontë (1820-49) – who's works, transcending Victorian conventions, have become beloved classics. All three, and their brother (Patrick) Branwell Brontë (1817-48), were born in Thornton, Yorkshire... . Their father, Patrick Brontë (1777-1861), who had been born in Ireland, was appointed rector of Haworth, a village of the Yorkshire moors... . In 1824, when their mother died, Charlotte and Emily were sent to join their older sisters Maria and Elizabeth at the Clergy Daughters' School in Cowan Bridge; this was the original in which was modeled the infamous Lowood School of Charlotte Brontë' novel 'Jane Eyre'. … In 1831 Charlotte went to school in Ro Head, returning home a year later to continue her education and teach her sisters. She returned to Roe Head in 1835 as a teacher, taking Emily with her. In 1842, conceiving the idea of opening a small privarte school of their own, and to improve their French, Charlotte and Emily went to Brussels, to a private boarding school. The death of their aunt, who had kept house for the family, compelled their return. Emily stayed at Haworth as housekeeper. Anne bacame governess in a family, where she was joined as tutor by Branwell, who had failed first as a portrait painter and then as a railway clerk. Charlotte went back to Brussels, her experiences there forming the basis of the rendering, in 'Villette' (1852), of Lucy Snow's loneliness, possibly the most terrifying depiction of human isolation in English literature. In 1845 the family was together again. … Each sister then embarked on a novel. Charlotte's 'Jane Eyre' was published first, in 1847; Anne's 'Agnes Grey' and Emily's 'Wuthering Heights' a little later that year. Speculation about the authors' identities was rife until they visited London and met their publishers.... 'Jane Eyre' 's popularity has never waned; it is the most impassioned expression of feminism in English. … (em: Funk & Wagnalls New Encyclopedia, 1979, vol. 4)

 

 

 

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publicado às 11:31

Dar um sentido à vida e prolongá-la através do amor

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 17.04.08

 

Uma estação de gasolina perdida no deserto, uma rapariga que pinta e gosta de poesia, um empregado desportista apaixonado pela rapariga, um velho avô avarento, um nómada escritor, um bandido foragido, um casal de ricaços em crise matrimonial, tudo misturado nessa Floresta Petrificada.

A rapariga atende o nómada e oferece-lhe o almoço no pequeno restaurante da estação de gasolina do avô, onde trabalha. A empatia entre a rapariga e o nómada é imediata. Cumplicidade de sensibilidades artísticas. A rapariga ler-lhe-á os poemas de um livro francês, sonhando com esse país distante que fora o da sua mãe, e que ainda vivia no seu nome, Gabrielle. E mostrar-lhe-á ainda os seus quadros onde ele verá todo um talento ali perdido, não se conformando com isso. Penso que é nesta cena breve dos quadros que Gabrielle lhe fala dessa floresta petrificada, magnífica metáfora para vida petrificada, como a do seu avô.

E é uma partida da vida que porá o nosso nómada de novo na vida da rapariga e que lhe dará a oportunidade única de a salvar, de a libertar daquele buraco no meio do deserto. De boleia com o casal de ricaços vê-se, com eles, refém do bandido foragido, o temível Duke Mantee, e de novo na estação de gasolina.

O nosso nómada terá a ideia brilhante de colocar o nome de Gabrielle na sua apólice de seguro de vida (o seu único bem material) e, para o fazer, terá de conseguir a assinatura de duas testemunhas. Depois ainda terá de convencer Duke Mantee a matá-lo, antes de se evadir dali.

Aqui todas as personagens se elevam acima da sua mediocridade, o que é verdadeiramente surpreendente! Talvez porque, em circunstâncias especiais, conseguem resgatar alguma autenticidade e generosidade perdidas. E aquela era uma situação-limite.

Até mesmo Duke Mantee. Sim, Duke Mantee que fica à espera da sua amada, mesmo correndo o risco de ser capturado. Os companheiros avisam-no, que ela o poderá ter traído, mas ele espera até ao fim. E cumpre a promessa que fizera ao nosso nómada, mesmo contrariado.

O nosso nómada deu um sentido à sua vida e de certo modo prolongou-a através de Gabrielle. Gabrielle sabe que o amor que a libertou é muito muito especial e poético. É a sua porta aberta para a vida. A sua oportunidade.

 

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publicado às 17:44

Encontros felizes

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 31.03.08

 

Há uma coragem comovente, feridas difíceis de curar, um encontro mágico e amizades para toda a vida! A linguagem mais nobre, a lição mais poética, e tudo num cavalo… Seabiscuit.

Seabiscuit existiu. Inspirou muita gente simples. E todas as personagens da história. Um cavalo pequeno para as corridas, mas um campeão. Que terá comovido e mobilizado multidões na América. Nele viram tudo isso e muito mais. A sua própria esperança. O seu próprio ânimo e coragem.

Numa época cada vez mais distante dos sentimentos e emoções reais, dos afectos, da lealdade, da constância, do tempo medido de uma vida, Seabiscuit também é mágico por nos recordar tudo isso. E conseguir despertar esses sentimentos em cinema… essa magia já a pensávamos perdida nesses filmes dos anos 30, 40. Outra prova da sorte e de encontros felizes.

 

 

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publicado às 10:36


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